2018 em análise – melhores e piores álbuns do ano

Por Francelino Prazeres de Azevedo Filho

2018 foi um ótimo ano para a música. Desde que comecei a fazer este projeto de análise crítica do ano, eu nunca tinha encontrado tantos álbuns que amei. Mas não vamos colocar o carro antes dos bois. Olá a todos, meu nome é Francelino, e eu escutei 148 lançamentos musicais do ano 2018. Os álbuns, como de costume, foram selecionados de listas de melhores do ano, recomendados por amigos, foram novos lançamentos de alguns dos meus músicos preferidos, ou simplesmente chamaram minha atenção por algum motivo. Este é o resumo do que achei.

As listas dos críticos me fizeram escutar a novos materiais de artistas aclamados cujo trabalho anterior não me deixou uma impressão positiva, e eu acabei gostando. Car Seat Headrest me incomodou com seu Teens of Denial de 2016, mas seu novo Twin Fantasy não foi desagradável, apesar de não ter um pingo de originalidade, nem nenhuma melodia excepcional. Para dias ruins de Mahmundi puxou muito de Djavan e Tim Maia, melhorando muito o som de seu insosso disco autointitulado. Be the cowboy de Mitski foi um dos álbuns mais prestigiados do ano passado, mas para mim ele foi só bonzinho. Sua proposta é de um pop-rock com foco intimista, mostrando o âmago da cantora. Para isso ela faz o que eu tanto odeio, que é o uso de letras sem métrica, nem versos claros, nem rima. Isso não chega a atrapalhar, já que as melodias são consistentes, ainda que não das melhores. O mais surpreendente desta leva foi o Aviary de Julia Holter, uma sequência deslumbrante e diversa de pop polifônico, cuja ordem no disco fez com que cada faixa, e cada elemento das faixas, contrastasse com os outros. Foi um pouco longo demais, porém.

Dentre todos os músicos vivos, não há um que eu ame tanto quanto Paul McCartney. No entanto, seu Egypt Station não manteve o padrão de qualidade dos seus últimos lançamentos, e tem um começo particularmente genérico. Mas talvez seja assim intencionalmente, para compensar o single bizarro Fuh You. Uma sopa de elementos incaracterísticos, que soam chocantemente horríveis na primeira escutada, mas que, ao ouvir mais, não pude deixar de admirar o quão ousada e autoconsciente ela é. Um dos melhores exemplos do fenômeno “tão ruim que é bom” na música. A parte final do disco dá uma guinada positiva, com uma estrutura diversa e várias faixas excelentes. Outro ídolo meu, David Byrne, lançou um bom disco, American Utopia, que só pode ser descrito como sendo “muito David Byrne”. Spiritualized me desapontou com seu And Nothing Hurt, parece que baixou o espírito de Galaxie 500 em Jason Pierce, sendo muito menos melódico e intenso que o maravilhoso Sweet Heart Sweet Light. O Tangerine Reef do Animal Collective é uma sessão de psicodelia ambiente despretensiosa, gravada em um único take, e diferente de muita coisa ambiente por aí, nunca chega a ser tedioso. MGMT inaugurou um novo som em seu Little Dark Age, um synthpop denso e prateado, puxado na new wave, mas ainda peguento. Rebound de Eleanor Friedberger, é um disco de pop lentinho, mas que não chega a ser letárgico. Não atinge o nível nem melódico nem de inovação dos discos dela nos Fiery Furnaces, mas ainda assim é bem sólido. Adoro sua voz.

O Cordel do Fogo Encantado lançou seu primeiro disco desde 2005, Viagem ao coração do Sol, e retornou com maestria ao seu som tradicional. Todos os elementos estão aqui, os violões, a percussão, a ardente poesia de Lirinha. O disco é sólido em todos os aspectos, mas não atinge o poder instrumental do primeiro, nem os ganchos pop-poéticos de Transfiguração, ou mesmo uma única canção-chave que se destaca acima de todas as outras como Na veia foi n’O palhaço do circo sem futuro. Pelo contrário, é um disco muito bom, mas sem cruzar um certo limiar de excelência. Gilberto Gil lançou seu Ok Ok Ok para marcar a recuperação de sua saúde, que passou por diversos problemas desde 2016.  É um álbum cheio de amor à vida e à família, ainda que não de vigor.

A colega de tropicália de Gil, Gal Costa, também figurou na minha lista com seu A pele do futuro, um pop midtempo com climão de anos 70, que chega à fronteira do cafona, mas não a cruza. O MPB feminino teve muitos destaques este ano, com claras tendências: produção eletronizada, pelo menos uma canção sobre orixás e liberdade para falar de sexo abertamente, muitas vezes na primeira pessoa. Cavala de Maria Beraldo é o mais fraco dos que eu escutei, pura conversa. TODXS de Ana Cañas tem a melhor capa do ano, e o disco é agradável, com uma puxada arrastada pro R&B. Até a banda Carne Doce entrou nesta onda, com Tônus, um disco muito mais “conversador” que os anteriores. A mudança foi bem-vinda, ficou um pacote mais coeso. Azul moderno de Luiza Lian talvez se destacasse mais em outros anos, mas segue fielmente esta tendência, e neste mesmo ano ouvi vários discos seguindo essa linha e é preciso um bocado para se destacar. O disco é bom mas a concorrência é melhor. Trança de Ava Rocha e o disco autointitulado do conjunto Mulamba são mais irregulares, com uma diversidade de gêneros e emoções, e grandes pontos altos, mas também pontos baixos. O melhor da leva é Taurina de Anelis Assumpção, com uma combinação natural de letras e melodias, ainda que na minha opinião faltou um refrão-clímax em certas músicas. Um disco que me decepcionou foi Filha de mil mulheres de Clau Aniz. Escutei imaginando que seria mais um desta linha, e era um pop letárgico, onde tudo soa comprido demais. Outro chatíssimo, o pior disco do ano para mim, foi Casas, de Rubel. Parece que, para o artista, só é preciso falar com voz macia umas banalidades pseudopoéticas e botar uns violinos e sintetizadores no fundo, que já pode chamar de música.

O hip hop brasileiro continua a tendência de 2017, trap cru. Baco Exú do Blues, Djonga e BK’ lançaram álbuns que eu definitivamente não gostei. Mas dentro deste estilo, curti Comunista rico de Diomedes Chinaski e S. C. A. de FBC, este último também estende a mão para o boom bap dos anos 90. Ambulante de Karol Conká não foi tão apreciado pela crítica quanto seu anterior Batuk Freak, mas para mim é da mesma qualidade. Enquanto o outro trazia influências mais brasileiras, este bebe do trap brilhoso norte-americano e do reggaeton. O melhor disco do hip-hop nacional de 2018 foi Amar é para os fortes, de Marcelo D2, para o qual eu tive que escrever uma resenha completa para dizer tudo o que penso. Sucintamente, é um álbum muito bom, com momentos de excelência, que resgata o estilo do começo dos anos 2010.

Dentro do universo do pop-rock, tivemos a banda goiana Cambriana com uma ideia inovadora de misturar indie pop com rock progressivo, em seu Manaus vidaloka. A execução ficou aquém, e apesar de interessante, não empolga. Ainda assim, é melhor que Mormaço queima de Ana Frango Elétrico, um pop-rock supostamente engraçadinho, mas cuja tentativa de humor cai por terra, bem como Sdds rolê lixo de Marianaa, um indiezinho lo-fi lerdoso sem ganchos querendo ser agridoce e profundo. Pra curar, de Tuyo, é um pop de midtempo a lento, com produção bem moderna e foco nas letras introspectivas. Eu entendo pq uns pagam muito pau para esse disco, porque ele faz o que se propõe a fazer com louvor. Mas não é algo que se encaixa muito no meu gosto. Minha conterrânea Duda Beat teve um começo promissor em seu Sinto muito. Inaugura um novo estilo de brega-indie-pop, algo como o som que o brega teria se tivesse se originado nos anos 10. Parece algo que vai gerar tendência, e aguardo ansiosamente para ver em onde isto tudo vai dar. Tenho que comentar sobre o sotaque dela, que tem algo estranho, para mim parece que ela está se esforçando para perder a pernambucanidade, e isto é bem triste. O conjunto Samba de Coco Raízes de Arcoverde não esconde seu sotaque forte e maravilhoso em Maga Bo apresenta …, que se propõe ser uma renovação no coco. A produção do álbum, nos sons de coco puro, é excelente, mas o produtor americano Maga Bo vez em quando inventa de botar uns toques de música eletrônica totalmente fora de lugar. No mais, o estilo coletivo de vocais do grupo dá uma força a mais, combinando com a instrumentação composta puramente de percussão. As duas primeiras músicas estão acima do resto do disco, no entanto. Paralelamente ao coco, a ciranda tem sua renovação em Mestre Anderson Miguel, com seu Sonorosa obtendo sucesso crítico. Infelizmente, eu fui ler uma entrevista com o rapaz, e nela ele se assume fã de Zezé di Camargo & Luciano. Desde então, não consigo deixar de ouvir a influência nefasta dessas criaturas no estilo vocal dele. Quando eu não percebo isso, como na música O cirandeiro, com participação de Juçara Marçal, ele pode ser formidável.

Um disco que me foi bem recomendado foi Pedra preta de Teto Preto, com seu som eletrônico meio industrial com vocais repetitivos. Não vi nada de mais. A faixa-título destoa ao adotar uma estrutura de samba, mas mantendo a instrumentação anterior. O resultado é bem interessante, uma pena que o álbum todo não seja assim. O grupo de rock industrial Daughters está na primeira posição do ranking de discos de 2018 do RateYourMusic com seu You Won’t Get What You Want, mas para mim este foi completamente esquecível. Mais agradável, mas também esquecível, é o OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES, de SOPHIE. Endless, de Frank Ocean, desperdiça boa parte do tempo com uma ambiência eletrônica glitchy, mas a outra parte do álbum é uma espécie de dream-soul etéreo, lembrando o bom Aromanticism de Moses Sumney de 2017.

Já comecei este projeto ouvindo de amigos que tivemos muitos discos bons de soul / R&B. Infelizmente, apesar de admirar a produção, não vi nada de cativante nas melodias de Velvet de JMSN, Cocoa Sugar de Young Fathers ou Negro Swan de Blood Orange. O que não é o caso de Sweetener de Ariana Grande e, especialmente, Isolation de Kali Uchis. Ponto para o mainstream. Gostei do disco de country Years de Sarah Shook & The Disarmers, mas não amei, o que me deixou um pouco triste, já que me foi fortemente recomendado por amigos cujo gosto estimo. Everything is Love do par Beyoncé e Jay-Z, intitulados The Carters neste disco, é bonzinho, musicalmente, transitando entre o hip-hop e o R&B. Mas as letras, bem, eu não costumo focar muito nelas, mas tive problemas com este disco. Como diz o título, o tema é, supostamente, amor. Mas é o amor de casais felizes no Instagram, é amor-ostentação. Eu não ligo para ostentação quando é sobre dinheiro ou proeza sexual, quando é algo autoconscientemente raso, mas para se falar de amor desta forma, tudo fica muito feio. E não ajuda ser cantado justamente por dois bilionários que lucram com trabalho escravo no Sri Lanka.

Além de alguns álbuns que figuram entre meus favoritos, e por isto, falarei depois, o hip hop anglófono teve vários álbuns de destaque. Death Grips continua com sua sonzeira sombria, agressiva e divertida em seu Year of the Snitch. JPEGMAFIA tenta dar sua versão ao estilo deles em seu Veteran. Apesar de ter uma produção muito boa, espástica e glitchy, sinto muito a falta de um furor maior no rap, acaba não empolgando. TA13OO de Denzel Curry definitivamente empolga nas suas faixas mais fortes, misturando o trap ao pop rap, embora não mantém o mesmo nível pelo álbum inteiro. LD mostra seu belo flow em The Masked One, da tradição do trap inglês, de som mais profundo, “aquático”, puxado para o grime. Some Rap Songs de Earl Sweatshirt tem uma produção brilhante, me lembrando muito o gênio Daniel Dumile / MF Doom, mas o rap é meio monótono, não pude amar o disco. Room 25, o primeiro álbum de Noname, é uma continuação da mixtape Telefone. Consegue injetar mais influências de soul e funk mas mantém o mesmo estilo idiossincrático de rap quieto, contido, que é algo que até hoje, só vi ela fazer. Único.

Dentre os discos de hip hop africano, curti bastante 137 Avenue Kaniama de Baloji, que teve bastante influência de outros gêneros da música congolesa, como soukous e tradi-modern. Não deixem de ver o magnífico vídeo da música Peau de chagrin – Bleu de nuit. Já os nigerianos Burna Boy e ClassiQ me desapontaram com seus respectivos Outside e New North, bem genéricos. Outra decepção foi Dentro da chuva da angolana Aline Frazão, uma musiquinha acústica bem ao estilo Anavitória. Seu oposto na África lusófona é Kebrada de Elida Almeida, este sim emocionante, com vocais muito expressivos, me lembrando que tenho que escutar mais música cabo-verdiana. Angélique Kidjo lançou uma versão afro-pop do clássico Remain in Light, cantando faixa por faixa, recebendo grande clamor crítico. Por algum motivo, apesar de amar a música de muitos de seus compatriotas benineses, não consigo gostar do estilo dela. Ainda assim é Remain in Light, um dos meus discos favoritos de todos os tempos.

Ainda na África, Emakhosini do grupo sul-africano Bantu Continua Uhuru Consciousness é um álbum difícil de descrever, com canções compridas, repetitivas e rítmicas. Influências tanto do rock quanto do funk são claramente perceptíveis, mas eu pessoalmente não diria que se encaixa em nenhum dos dois gêneros. A togolesa Orchestre Abass teve uma coletânea de seus singles antigos lançada, intitulada De Bassari Togo. Dentro do grande universo que é o afro-funk dos anos 70, não se destacou muito, exceto pelos teclados interessantes. Escutei dois discos de compositores malineses do povo songais, de mesmo sobrenome, mas até onde sei, sem nenhum parentesco. Ambos têm a guitarra elétrica bem marcada típica da música songai, mas faltou um tempero para Wande de Samba Touré. Sidi Touré, por outro lado, me cativou com seu Toubalbero. Guitarras também são o ponto forte do tichumaren do povo tuaregue: Deran do nigerino Bombino é bom, mas não tem a mesma personalidade do anterior Azel; Temet, da banda argelina Imarhan, tem pegadas de hard rock, mas infelizmente nesta mistura eles perderam a “lágrima” tão característica e forte do gênero. Ainda assim as guitarras dão show em ambos.

O etíope Hailu Mergia fez um etio-jazz idiossincrático em seu Lala Belu, afastando-se de instrumentos de sopro, levando a música com a sanfona e teclados. É uma música que se deita confortavelmente no fundo da minha mente. O grupo inglês Sons of Kemet emula o som do jazz africano em Your Queen Is a Reptile. Falta intensidade e melodia, contudo. Amaro Freitas melhorou em Rasif comparado ao anterior Sangue negro, mas nada que chegue a me agradar. Meu odiado Kamasi Washington retorna com duas horas e meia de nada em Heaven and Earth, que exemplifica o pior que existe no jazz. Day De Senar da Mediterranean Deconstruction Ensemble é música sefardita (ibero-judaica) feita em Moscou, com infelizes toques de jazz. Bem quando a música vai pegando embalo e instigando, nas boas partes sefarditas, surge o jazz para encher o saco, é verdadeiramente frustrante!

Uma miscelânea ainda maior está em Antología del cante flamenco heterodoxo do espanhol Niño de Elche. Supostamente, é um disco de flamenco, mas tem de tudo, de tango, à música coral medieval, à entonação de vocais ao estilo Stockhausen. Mais uma inovação do flamenco foi El mal querer, de Rosalía. Traz a força emocional do gênero embalada em um novo pacote, com produção moderníssima. Dead Magic, da sueca Anna von Hausswolff, consegue ter atmosfera pesada e opressiva sem passar o ponto em que fica ridículo. As duas últimas faixas, instrumentais, são entediantes sem os vocais agourentos. Retratos é um disco de violão clássico, solo ou com acompanhamento esparso, de Otto Tolonen. São composições variadas, incluindo uma suíte do meu amado Ástor Piazzolla, e Otto extrai as melhores texturas e cores do seu violão. Honey, da sueca Robyn é supostamente dance-pop, mas é muito lento e não-dançável. Os beats e a voz dela, muito macia e “empolgada”, tampouco me deixam apreciá-lo como uma obra mais emotiva. Negirdėta Lietuva de Saulius Petreikis é música tradicional lituana, com muito foco em madeiras. As faixas são curtas e muitas, e bem sequenciadas, cada uma durando só o necessário. Gosto muito da música mongol-siberiana, e o conjunto lendário tuvano Huun-Huur-Tu se uniu ao americano Carmen Rizzo para fazer o EP Koshkyn. Os toques eletrônicos de Carmen não acrescentam muito, até atrapalham às vezes, mas, no mais, são quatro novas canções de um grupo que eu amo. Амыр-Санаа (Amyr-sanaa) dos também tuvanos Hartyga une o som siberiano com rock progressivo. Aprovei a ideia, mas a realização das músicas em si poderia ter sido melhor. Vejo muito potencial neste estilo.

Твои глаза da daguestanesa Аминат Ибиева (Aminat Ibiyeva) é um dance-pop do Cáucaso, muito bom, rápido e fervente, com muita sanfona e um lustre eletrônico. İstikrarlı Hayal Hakikattir, da turca Gaye Su Akyol não empolga tanto, mas é satisfatório. Não tenho muito conhecimento sobre música turca, mas me parece algo que representa para os turcos o que a MPB é para o Brasil. Talvez com maior conhecimento eu pudesse diferenciar mais se é algo banal ou se tem sutilezas que trazem grandeza. O muito aclamado álbum 무너지기, do sul-coreano 공중도둑 (Mid-Air Thief) é um pop leve, meio ambiente, meio psicodélico, não curti. Sua compatriota 박지하 (Park Jiha) foi muito mais bem-sucedida com seu Communion, um disco minimalista de beleza discreta e instrumentos tradicionais coreanos. Sujud, de Senyawa, traz um som que parece mistura de música tibetana com noise rock vindo e pitadas de Current 93, vindo de um grupo indonésio. Não conseguiu me passar o sentimento de autenticidade tão importante para me conquistar com esse tipo de música. Djarimirri, do falecido cantor aborígene australiano Gurrumul, é um álbum daqueles que, de tão lentos e emotivos, caso consigam romper uma certa barreira no meu coração, eu consideraria uma obra-prima. No entanto, se eles não atravessam, então é muito difícil para mim apreciar a música, embora eu racionalmente admire o que há aqui.

Uma tendência na música latino-americana é de misturar os sons locais com música eletrônica. Ouvi Ch’usay, dos peruanos Novalima; o autointitulado da dupla caribenha Trending Tropics; Mambo Cosmico, dos mexicanos Sonido Gallo Negro, que é uma cúmbia eletrônica; o autointitulado dos argentinos Panchasila, este mais para ambiente; todos não passam de ok. Não há um disco de 2018 no qual este som está melhor realizado que nas duas primeiras músicas de Bienaventuranza, de Chancha Vía Circuito. O disco todo é muito sólido, muito bem produzido, com uma atmosfera de amor pelo mundo, mas as duas primeiras músicas em particular acertaram na veia. Se o disco mantivesse o mesmo nível por toda sua duração, seria um dos meus favoritos do ano; do jeito que é, ainda assim é muito bom. Escutei também os dois mais proeminentes discos de reggaeton consecutivamente. O muito criticado Fame, de Maluma, me pareceu inócuo e um pouco irritante na primeira escutada, e foi ficando mais cansativo. Ao ouvir Vibras de J Balvin, ficou evidente o quanto mais de energia o gênero pode atingir. Norma de Mon Laferte é um bolero-pop bem peguento, especialmente a primeira música, Ronroneo. Natalia Lafourcade em Musas Vol. 2 repete a fórmula do volume 1, alternando canções próprias e do cânone latino-americano. Bom álbum, mas não há aqui uma canção que se destaque tanto como Que ha pasado con quererte, e neste mesmo ano, foi lançado um disco com os mesmos elementos, mas muito melhor…

Estou falando de Folclor imaginario, do chileno Gepe, e devo dizer que a partir daqui, começam os meus dezesseis álbuns favoritos de 2018, sem uma ordem específica. Folclor imaginario é uma busca de resgate da cueca, música romântica de violão latino-americana do começo do séc. XX, especialmente influenciado pela cantora Margot Loyola. Acredito que foi muito bem-sucedido nisto, por três fatores: o primeiro e mais importante é que o disco é delicioso e bem sentido, o segundo é que ficou muito difícil para eu, que não tenho tanto conhecimento desta área, distinguir o que era novo e o que era antigo, e o terceiro é que me deu muita vontade de descobrir mais desta rica tradição. O conjunto Okonkolo, em seu Cantos, traz força rítmica e vocal em música de santería, com arranjos ricos, usando de elementos de rock e música clássica ocidental, por exemplo, sem nunca descaracterizar a pura santería. Tudo permanece muito fácil na sua mente, e é incrível como ele mostra tanto poder e ao mesmo tempo tanta leveza. Fechando a trindade latino-americana, Bajo el mismo cielo da cubana La Dame Blanche é um exemplo de primor em hip-hop. Flow, ganchos, produção, diversidade, tudo aqui é excelente.

A dança dos não famosos de Mundo Livre S/A soa espesso e denso, como os seus álbuns clássicos dos anos 90 nunca soaram. É uma obra conceitual que traduz os anos Temer da história brasileira. Já li por aí que este disco já saiu datado, que perdeu o impacto, pois já estamos na era Bolsonaro, mas eu discordo fortemente. Primeiro que, musicalmente, o álbum é muito forte. Segundo que em grande parte o desgoverno Bolsonaro é continuação direta de Temer, então grande parte do conteúdo continua extremamente relevante. Dirty Computer de Janelle Monáe é igualmente influenciado pelas atribulações políticas e ideológicas da era Trump dos EUA, e pela morte de Prince. Talvez seja o disco mais “significativo” da carreira de Janelle, O disco de protesto dos anos 10. Mas ao mesmo tempo, musicalmente, não atinge os mesmos picos dos dois discos anteriores. Deus é mulher de Elza Soares é a continuação d’A mulher do fim do mundo. Segue a linha do magnífico antecessor, mas, até para refletir estes tempos tristes, tem uma pegada mais sombria, e por isso talvez, uma sonoridade mais “rock” e menos “samba”. O melhor disco político do ano é Memórias do fogo de El Efecto. Rock progressivo no sentido raiz, é a prova cabal que o gênero pode ser completamente relevante nos tempos atuais, desde que mantenha a atitude dos desbravadores dos anos 70, ao invés de buscar apenas repetir seu som. As letras revolucionárias combinam com as melodias perfeitamente, formando canções que vão e voltam e agradam tanto às partes mais racionais do cérebro quanto as partes mais profundas e rítmicas. Vigor e melodia estão no máximo nível aqui, e a variedade de influências em cada faixa não para de surpreender.

Se os renovadores do coco e ciranda obtiveram resultados díspares, os medalhões não foram menos que estelares. Depois de quase 10 anos já gravado e pronto, e 8 anos após sua morte, foi finalmente lançado o primeiro e único disco solo de Biu Roque, A noite hoje é maior. Fez jus à sua magnífica história, sempre marcado no passo, e sua voz única encantando em solo, ou contrastando nos vários duetos. Ainda melhor foi a colaboração de Nélson da Rabeca com o suíço radicado no Brasil Thomas Rohrer, Tradição improvisada. Incrível a diversidade de texturas que eles atingem do que é basicamente um dueto de rabecas, indo do baião tradicional a improvisações vanguardistas dissonantes. As faixas com participação da esposa de Nélson, Dona Benedita, trazendo seus vocais roucos, dão uma boa quebra, aumentando a variedade do álbum. O álbum é talvez longo demais, e especialmente no par de faixas “Deodoro” / “As andorinhas”, fica cansativo, mas logo depois se recupera nas faixas seguintes, e enfim, acho que o propósito é mais de registrar tudo que foi feito nas sessões entre os dois.

O gênio Kanye West, após apoiar Donald Trump e ser internado num hospital por psicose causada por extrema falta de sono e desidratação em 2016, retirou-se para um rancho no estado estadunidense de Wyoming para fazer música. O resultado foram cinco álbums, de artistas diversos, mas produzidos por Kanye, todos com menos de meia hora de duração, lançados um por semana, consecutivamente, a partir de 25 de maio de 2018. O primeiro da leva foi Daytona, de Pusha T, e não poderia haver um começo melhor que a pedrada If You Know You Know para mostrar a que veio. Tudo é de primeira qualidade aqui, mas com uma certa planeza, como se o disco se entregasse totalmente na primeira escutada, e depois, você pode (deve) apreciar os mesmos elementos, todos ótimos, mas não há mais nada a ser descoberto.  Em seguida veio ye de Kanye, em muitos aspectos o oposto de Daytona, e em outros tantos, seu segundo ato. Mantêm a mesma estética e fluem muito bem de um para o outro, mas diferente do anterior, este faz uma primeira impressão ruim. Pode ser culpa da faixa que abre o disco, I Thought About Killing You, que não é nem de longe a música mais acolhedora, iniciando sua experiência com o pé errado. Ou será mesmo? Pela quarta ou quinta vez que a escutei, passei a sentir seu verdadeiro impacto. O que parecia ser uma baboseira “oh, como sou psicopata” vira uma estrutura musical genuinamente brilhante. O resto do álbum segue essa linha, apesar de não haver uma diferença tão grande entre escutadas como na primeira faixa. Tudo aqui tem facetas, que eu posso perceber em uma sessão e não mais na seguinte, e com cada descoberta nova, eu fiquei gostando mais e mais. Daytona e ye, hoje eu os considero do mesmo nível, mas o terceiro disco da sequência é ainda melhor. O autointulado de Kids See Ghosts, colaboração entre Kanye e Kid Cudi, tem o melhor dos dois lados. Não só deslumbra na primeira escutada, mas tem sutilezas para se desvendar nas escutadas subsequentes. Tudo aqui é imponente, com produção basicamente perfeita, com um elemento de gigantismo, mas ao mesmo tempo sem a atmosfera de excesso de My Beautiful Dark Twisted Fantasy. É o segundo lugar na minha lista dos favoritos. Os dois últimos discos das sessões de Wyoming são Nasir, de Nas e K.T.S.E. de Teyana Taylor. Estão longe de serem ruins, mas estão longe da excelência dos três primeiros.

Siri Ba Kele, do conjunto burquinabê Baba Commandant & the Mandingo Band, é um tipo de álbum sobre o qual eu tenho muita dificuldade para escrever. É um afro-funk repetitivo e rítmico, com uma pegada que não deixa minha parte racional da mente trabalhar, mas mesmeriza do começo ao fim. Os nigerinos do Tal National soltaram toda sua fúria musical em Tantabara. Se no ocidente o rock em geral parece estagnado, na África ele vive. As guitarras, selvagens, e a bateria funcionam como uma máquina bem azeitada, são as melhores do ano em particular. O selo alemão Analog Africa lançou a sequência de sua compilação de vários artistas African Scream Contest. O primeiro volume, de 2008, foi minha introdução à musica beninense, e guardo um amor muito forte a ele por isso. Quando eu li as palavras African Scream Contest volume 2, eu não pude evitar de criar expectativas de que ele seria como o primeiro, que haveria um segundo mundo musical beninense inteiro para mim, para ser descoberto, e claro que as coisas não são assim. Passada a leve e inevitável decepção, principalmente em escutadas subsequentes, passei a amar este disco, ainda que não tanto quanto o primeiro, como a coleção maravilhosa e diversa de canções de uma era e lugar que me encantam tanto. E a escolha dos artistas ainda foi muito bem pensada, trazendo além dos figurões como os Volcans de Porto-Novo e a Tuit-Puissant Orchestre Poly-Rythmo, nomes mais obscuros como Elias Akadiri e Picoby Band d’Abomey. E remedia a ausência do volume um de um dos meus maiores ídolos, Stanislas Tohon, que aqui arrasa tudo com sua pedrada Dja, dja dja. Por fim, meu disco preferido de 2018, Yen Ara de Ebo Taylor, para mim, é o que mais expõe a tristeza do domínio anglofônico na mídia global. Não fosse o idioma, canções como Krumandey e Ankoma’m seriam consideradas clássicos universais do funk, do mesmo patamar de Tear the Roof Off the Sucker (Give Up the Funk) e Get Up I Feel Like Being a Sex Machine. Yen Ara atinge a perfeição em melodia e composição, maestria instrumental, tudo pulsando guiado pela juventude e vigor de sua voz de 82 anos de idade! Escutem este disco, meus queridos, vocês irão se surpreender. Divulguem a música africana!

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